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O midas da farmacêutica está de volta - matéria no Valor Econômico, entrevista o Sr. Omilton Visconde Júnior. Confira!

Omilton Visconde Júnior não é uma celebridade que circula em colunas sociais. Seu nome é conhecido na indústria farmacêutica e no circuito de ricos e famosos que participam do Porsche Cup, campeonato para os iniciados nessa categoria automobilística, como personalidades do calibre...

 

Omilton Visconde Júnior não é uma celebridade que circula em colunas sociais. Seu nome é conhecido na indústria farmacêutica e no circuito de ricos e famosos que participam do Porsche Cup, campeonato para os iniciados nessa categoria automobilística, como personalidades do calibre de Constantino Jr., herdeiro da Gol, Adalberto e Ricardo Baptista, da segunda geração de uma das famílias controladoras do laboratório Aché.

Dentro das pistas, Visconde Jr. diz que ainda tem muito a aprender. Mas fora delas, sua bem-sucedida carreira é um "case" de sucesso. Conhecido como "midas" do setor farmacêutico, o empresário tem um talento nato para farejar bons negócios. Nos últimos dez anos, vendeu três importantes ativos - o laboratório Biosintética, que pertencia ao seu pai para o grupo nacional Aché, a Segmenta, produtora de soros, para a farmacêutica brasileira Eurofarma, e a Prev saúde, empresa de gestão de benefícios de medicamentos, para a empresa Orizon, do grupo Visanet. Ao mesmo tempo, começou a fazer investimentos em novos negócios que ainda estão em suas mãos.

Nos últimos três anos, Visconde Jr. associou-se a executivos para lançar a Netfarma, empresa de venda de medicamentos online, e criou a Entregga, consultoria em gestão e fusões e aquisições. No segundo semestre, prepara-se para voltar ao mercado com a Mip Farma Brasil, farmacêutica recém-criada para comercializar medicamentos isentos de prescrição, um segmento em expansão, que responde por cerca de 30% da receita do setor, que atingiu cerca de R$ 50 bilhões no ano passado. Essa nov a companhia v ai começar a vender produtos da área de dermocosméticos e nutracêuticos, com maiores margens no setor. Visconde Jr. está em conversações com uma empresa holandesa para importar os primeiros produtos e costura parcerias com laboratórios nacionais, uma vez que não pretende ter uma fábrica própria. A empresa nova já está credenciada na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e aguarda a aprovação para a liberação de dez registros de produtos que serão colocados no mercado ao longo dos próximos meses.

"Eu me cobro muito. Tudo que eu faço tem de dar certo. É muito complicado lidar o tempo todo com isso"

Quando decidiu vender a Biosintética, em 2005, para o grupo Aché, muito se especulava sobre o que o empresário, à época, com 42 anos, iria fazer da vida. A farmacêutica fundada por seu pai foi vendida por R$ 600 milhões, considerado àquela época o maior negócio em valor do setor. Entre seguir a vida com muito dinheiro no bolso e buscar novos desafios profissionais, Visconde Jr. ficou com a segunda opção.

Depois de vender a empresa da família, o empresário começou tudo de novo, quase do zero. É que no processo de negociação da Biosintética o Aché deixou de fora um pequeno laboratório produtor de soro, que não fazia sentido para a companhia. E foi com esse pequeno ativo descartado, considerado uma espécie de "primo pobre" do setor farmacêutico, que Visconde Jr. recomeçou. "Não havia uma companhia brasileira forte nessa área de soros. Imaginávamos fazer da Segmenta uma Baxter (referência à época nesse mercado)", afirma. Cinco anos depois, a Segmenta ganhou relevância e foi vendida em 2010 para a Eurofarma, por cerca de R$ 500 milhões.

Comenta-se no mercado que tanto o Aché como a Eurofarma demoraram um bom tempo para digerir "o tamanho" de suas respectivas aquisições. Para o Aché, a compra deu impulso aos negócios do grupo na área prescrição médica. No caso da Eurofarma, a operação permitiu à companhia entrar no segmento hospitalar. "Mas a Eurofarma sofreu um baque logo depois. O preço do soro recuou cerca de 70% seis meses após a operação ter sido fechada", afirma uma fonte.

Com a fama de midas consolidada, o empresário, primogênito, foi o único dos três filhos que seguiu os passos de seu pai, Omilton Visconde. "O Júnior em meu nome não foi à-toa. Ter o mesmo nome de seu pai acarreta em coisas boas e ruins. As pessoas esperam que você seja igual, mas você não é. Consegui seguir uma carreira na mesma área, mas com estilo próprio. Meu pai era um cara muito mais apegado aos detalhes, centralizador. Sou mais de delegar, cobro resultado."

Os dois irmãos de Visconde Jr. saíram do setor, mas também são bem-sucedidos em seus negócios. Henri é proprietário da Eurobike, maior revendedora de carros de alto luxo no Brasil, e Marcel, o caçula, é importador da Porsche no Brasil.

De origem humilde, Omilton Visconde, o pai, começou a vida como entregador de medicamentos em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Também foi balconista de farmácia e virou propagandista de laboratório no fim dos anos 50. Visconde Jr. nasceu em 1 963, em Bauru (SP), passou parte da infância em Ribeirão Preto e depois foi para São Paulo, quando seu pai já tinha uma carreira estabelecida no setor farmacêutico. "Meu pai foi principal executivo da Sintofarma (atual Abbott), concorrente do Aché no passado. Em 1 982, aos 44 anos, meu pai teve um infarte. Foi quando ele decidiu que não queria morrer trabalhando para os outros", conta Visconde Jr. À época, seu pai era sócio-majoritário de uma pequena distribuidora de medicamentos que atuava no interior de São Paulo. "Ele recebeu uma proposta de comprar uma linha de medicamentos da Alcon (que foi adquirida pela suíça Novartis), com produtos nas áreas de cardiologia, sistema nervoso central e clínica geral. Daí surgiu a Biosintética", diz.

A Biosintética foi um dos laboratórios mais importantes na área de medicamentos voltados para cardiologia no Brasil. "Meu pai faleceu aos 60 anos, em 1998, em um período bastante conturbado às vésperas da lei dos “Genéricos no Brasil", diz. A venda do grupo em 2005 foi uma questão de tempo. "Se não vendêssemos para o Aché, ou faríamos um IPO (Oferta Inicial de Ações, na sigla em inglês) no ano seguinte porque tínhamos tamanho e governança voltadas para isso, ou seríamos consolidados."

Nesse mesmo período, Visconde Jr. já engatava negócios paralelos. Em 2007 , tornou-se sócio-majoritário da Prevsaúde, empresa que opera benefícios e programas de planos de saúde, que ganhou importância no mercado brasileiro, vendida depois para a Orizon. "Gosto dessa dinâmica de começar a fazer um negócio e depois sair. É um processo rico. Quando decidimos vender a Biosintética, teve todo aquele apelo emocional de ter começado o negócio com o meu pai, em um período complicado. Todos perguntavam o quer iríamos fazer depois de vender à farmacêutica e como seria a minha v ida. Descobri que não acontece nada de traumático. É só mudar o endereço e estar aberto para coisas novas", diz.

Além dos negócios na área farmacêutica, Visconde Jr. tem duas fazendas na região de Ribeirão Preto. Em uma delas cultiva cana-de-açúcar e toda sua produção é vendida para usinas locais. O empresário também está restaurando uma fazenda de café, a Santa Cecília, adquirida da tradicional família da região, a Moreira Sampaio, que está em sua terceira geração. "Comprei a sede da fazenda, fundada em 1895. Gosto muito de pegar um negócio que tem valor histórico importante, em péssimas condições e revitalizar. Fizemos renovação da área de café e vou manter uma pequena produção artesanal."

O campo não é bem a área onde Visconde Jr. gosta de atuar. "Aposto em negócios nos quais eu acho que tenho capacidade para gerir", diz. Formado em administração, Visconde Jr. se deu melhor na área de marketing, com lançamentos de produtos. "Com o tempo, fiquei muito mais focado na área financeira. Não sei exatamente se foi uma evolução ou necessidade de lidar com os números", afirma.

Assim como seu pai, o empresário é uma figura atuante no setor farmacêutico. Foi presidente de entidades de classe, como o Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo) e um dos sócio-fundadores da Febrafarma (Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica). Respeitado no setor, não tem grandes desafetos, segundo pessoas próximas ao empresário. Visconde Jr. chegou a pensar em se lançar na carreira política, mas desistiu da idéia. Não por falta de traquejo, mas por considerar o "negócio" um pouco arriscado.

A vida social do empresário começou a ficar mais intensa nos últimos meses. Casado novamente – Visconde Jr. tem dois filhos do primeiro casamento e um neto, tem se dedicado a viagens. "Nada muito exótico." Por enquanto, nenhum de seus dois filhos está interessado nos negócios da família. Carolina, de 24 anos, a mais velha, faz publicidade. João Vítor, de 19 anos, tem vocação musical, mas decidiu fazer administração. "Há dois meses, ele começou a acompanhar o dia a dia do escritório, mas sem um compromisso mais sério", diz o empresário.

Neste ano, Visconde Jr. v ai se dedicar à nova empresa, a Mip Farma Brasil, e à restauração de sua fazenda de café. O empresário está resgatando toda documentação histórica da propriedade e para lá pretende transferir algumas de suas obras de arte. Ele não se define como um colecionador, mas tem obras de arte moderna, que incluem Di Cavalcanti, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Iberê Camargo e José Pancetti, entre outros.

Competitivo nos negócios, o empresário decidiu dar um tempo das corridas de Porsche. "Meu irmão Marcel é um dos melhores pilotos da categoria", afirma. "Cheguei ao meu limite. Percebi que não tenho capacidade para ser o primeiro. Decidi parar este ano."

Agora seu principal hobby é o golfe, mas não sabe por quanto tempo. "Estou gostando, mas é irritante. Exige paciência e concentração, coisas que eu não tenho. O golfe é um esporte a longo prazo. Eu quero aprender rápido. É diferente. Não é você contra um concorrente. É você contra um campo", diz.

Apesar de anos de experiência no setor farmacêutico, jura que não é hipocondríaco. Suas crises existenciais são tratadas em sessões de terapia. "Eu me cobro muito. Tudo que eu faço tem que dar certo. É complicado lidar o tempo todo com isso. Mas descobri que sou menos competitivo do que eu imaginava. Hoje tenho mais paciência comigo mesmo do que antes, quando era mais jovem."

Matéria por: Mônica Scaramuzzo

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